A MADRASTA COMO SOMBRA NOS CONTOS DE FADAS – Adriane Colerato

A MADRASTA COMO SOMBRA NOS CONTOS DE FADAS – Adriane Colerato

A MADRASTA COMO SOMBRA NOS CONTOS DE FADAS – Adriane Colerato

  • Por Humanae
  • Publicado em: 17/10/2016

“Mal se cruzou com elas a pobre órfã percebeu que nada de bom poderia esperar delas, pois logo que a viram disseram-lhe com desprezo: - O que essa moleca faz aqui? Vai para a cozinha, que é lá o teu lugar!!!

E a madrasta acrescentou:

- Tem razão filhas. Ela será nossa empregada e terá que ganhar o pão com o seu trabalho diário.”    Cinderela – Irmãos Grim.

               

A Madrasta é uma figura muito recorrente nos Contos de Fadas, principalmente quando se trata de uma heroína na história. A personalidade desta heroína, geralmente está vinculada com a mãe que falecera deixando-a órfã. Sendo uma figura bondosa, benevolente, amorosa e cuidadora e mesmo com pouco tempo com a filha consegue passar para ela qualidades importantes para a heroína seguir sua jornada.

No conta da Cinderela fica evidente quando sua mãe adoece e pede para filha ser boa e piedosa. Suas qualidades são herdadas pela filha. Para Sanford, nossos pais são peças fundamentais na formação do Ideal de Ego, reforçando nossos comportamentos de acordo com seus códigos de conduta. Assim fica claro que o comportamento dos filhos da madrasta apresentam características semelhantes com o da própria mãe.

Se o pai tem uma filha que herda as características da mãe, que se torna santificada a partir da sua morte, qual o papel que sobra para está nova mulher? O papel oposto da heroína. Enquanto a heroína é justa, piedosa, carinhosa e trabalhadora a Madrasta torna-se o oposto: dissimulada, perversa, injusta, manipuladora e egoísta. Para Gonçalves, estas características fazem com que o marido ceda a todos os seus caprichos.

A Madrasta apresenta o aspecto sombrio da personalidade da heroína, ou seja, é a parte reprimida do ideal de ego. A sombra é um aspecto da nossa personalidade que temos dificuldade para tornarmos conscientes. Para Sanford, a sombra é a parte da nossa personalidade que não temos consciência, incentivado por nosso ideal de ego que está relacionado com os padrões culturais que vivemos as regras sociais nas quais estamos inseridos, além as expectativas dos nossos pais sobre nosso comportamento. Sanford cita os contos de fadas como um meio de visualização da sombra:

“...devido ao fato da sombra ser um arquétipo ela tem sido, frequentemente, representada através de mitos, contos de fadas e na grande literatura...” p. 73

Uma maneira comum de identificar a sombra é a projeção, tratando-se de um processo inconsciente, quando ativado, vemos no outro algo muito vivo em nós, mesmo que não temos consciência. Projetamos conteúdos inconscientes nas pessoas que nos incomodam. Entender que nos Contos o quanto a heroína incomoda a madrasta e o quanto a heroína é submissa a madrasta, tratando-se de dois aspectos da mesma moeda. A madrasta precisa da heroína tanto quanto a heroína precisa da madrasta. E enquanto não houver motivação para a mudança as duas vão vivendo em perfeita harmonia. Está harmonia é quebrada no surgimento de um novo elemento por parte da madrasta em Branca de Neve:

“O espelho responde:

- Senhora rainha, tu és mais bela que esta aqui, mas Branca de Neve é mil vezes mais linda que todas as lindas que há por ai.”

E no caso de Cinderela, a motivação parte por ela mesma:

“Mas quando viu as duas luxuosamente vestidas, desabou a chorar e suplicou a madrasta que também a deixasse ir ao baile.”

Nos exemplos acima mostra que é necessário à entrada de um elemento novo para romper a simbiose madrasta – heroína – pai, pois o objetivo da madrasta nos contos de fadas é criar circunstancia de humilhação para enteada, colocando-a cada vez mais distante da sua situação de princesa-nobre, impondo uma situação de humilhação para a heroína começar sua jornada. É evidente que se não existisse a madrasta, a princesa não percorreria o caminho para o crescimento e ficaria presa na figura do Pai. Podemos dizer que a madrasta impulsiona o crescimento psíquico da Princesa para dar início a sua jornada.

Após a vitória da sua jornada a figura da madrasta perde o sentido para nossa heroína, pois foi libertada da sua relação incestuosa com a figura paterna e está pronta para casar e de fato tornar-se esposa.